Recebi este e-mail que acredito representar um questionamento muito comum entre a comunidade artística. Resolvi postar no Blog, porque ao responder-lhe, faço registro de uma série de idéias sobre o assunto que posteriormente podem ser aproveitadas, tanto por mim como de leitores/pesquisadores do assunto. Mantenho sua identidade em sigilo, visto que não pedi permissão para publicação.
O E-mail
Querida Gaby-com o encerramento das Bienais quero, em tempo, te cumprimentar por tão exitosa empreitada.A pessoa certa no lugar certo, repito eu. Sigo porém com minhas dúvidas quanto aos critérios, ou não, de seleção.Temo ficar o equívoco no ar- para quem faz e quem vê arte- espécie de apologia às avessas de uma causa, caso o produto mostrado não convença. Ou não. Tô pensando alto contigo, com aquele meu vício crítico de exigência de VISÃO. Contigo que afinal deteve as rédeas dessa campanha que deverá sobreviver forever junto às próximas Bienais, cravando quem sabe ainda mais em seu lado B. Tá em tuas mãos Gaby, parceira querida, dar forma às nossas espectativas, até uma adequação, quem sabe, aos novos modelos (como insiste hoje a Bi de Sao Paulo), capaz de se adentrar legal nessa TERCEIRA MARGEM, aquele espaço¨¨entre¨¨, super conquistado, digno de ser visto, julgado e considerado, como propôs o Gabriel. Tu sabe, tu pode: Vamos sempre.
Minha Resposta
Saudações!Fico extremamente feliz em receber tuas considerações e ver nisso a possibilidade de conversarmos a respeito. Muito obrigada pelos cumprimentos.Vou te contar um pouco da história e dos meus sentimentos, como dizes, pensando alto junto com você...
Esse filho, Bienal B, assim como é normal aos filhos, acabou, em muitos momentos, se rebelando contra minhas rédeas e se impondo democraticamente contra algumas de minhas vontades.Tenho consciência que mostramos muita coisa "ruim"(?), misturado com coisas legais, mas por outro lado, acabamos parindo uma Bienal democrática sem precedentes, uma amostragem de arte das mais diversas qualidades como nunca se viu. Tem coisas ruins? pra quem estuda arte tem bastante, mas também tem um monte de coisas ótimas, de gente talentosa que se tornou visível graças à B. Acho que isso supera a decepção de algumas pessoas da classe e sinceramente, meu intuito não foi agradar a classe, pois a esta (recheada daqueles que se apropriam de teorias lidas e repetidas para emitir opinião de rodapé) quase nada agrada. Basta ver a permanente crítica à Bienal do Mercosul que, coitada, nunca agrada rsrsrsrs ...acho esse tipo de opinião também muito duvidosa, de gente que não pode se agradar de nada, pois tem medo de se comprometer, ou não consegue ter flexibilidade para ver aquilo que tem de bom em iniciativas positivas e/ou construtivas.
Vale citar que a Poa Boa também foi uma paralela, aparentemente construída sob princípios de qualidade melhores que a B e nem por isso agradou também, pois também dela ouvi críticas... deixando claro que da minha parte também sou participante da POA Boa e gosto de muitas coisas que estão lá. O objetivo fundamental da B foi criar opotunidades de diálogo com o público leigo e essas coisas que nós artistas consideramos muitas vezes ruins, é justamente o que faz a ponte com o público leigo...também pude observar que essas coisas "ruins" faziam justamente o público virar os olhos para coisas mais legais....Nosso público alvo foi o público leigo e nosso objetivo foi tornar a arte mais acessivel, menos careta e considero que tivemos sucesso.Para mim, a Bienal B não é apenas uma amostragem de arte, mas o próprio objeto artístico. Seu mérito não é pelo que mostrou, se era quadro de paisagem ou uma complexa obra de significados misteriosos e processos profundos, mas pelo que representou em termos de reconhecimento de sua própria existência enquanto articulação de sistema de arte, que sabemos, não se compõe apenas dos melhores artistas.Concordo com suas idéias em alguns pontos e meu intuito estava próximo disso, mas ao lidar com a democracia, orientando o gerenciamento muitas vezes através de uma opinião gerada por um consenso interno da Bienal B, muitas coisas tomaram rumos diferentes e autônomos, que apesar de parecerem ruins inicialmente, foram justamente fator de mudança, que, claro, causa desconforto e estranhamento. Mas em Arte é assim mesmo né, o que é novo geralmente é visto com reticências e a história da arte está ai para legitimar....Olhemos em torno e vamos ver o quanto nossos modelos se encontravam estagnados...a Bienal B é muito alternativa? mas foi isso justamente que se tornou legal...Imagine eu no começo querendo que tudo saisse perfeitinho heheheh enlouqueci mesmo, dai, quando relaxei e larguei as rédeas, o filho se tornou independente, mostrou que tinha o gên(io) de todos aqueles que lhe pariram e mostrou que sabia se virar sozinho, mesmo que não fosse exatamente como eu imaginava, mas de alguma forma dando certo...e isso foi bonito de ver.Concluindo, como tudo na Bienal B não é como se espera, não tenho tanta certeza de que serei propulsora de uma segunda edição desta paralela, pois no meu sentido de dever pela causa, já fiz meu papel, mostrei caminhos, que era possível mesmo sem dinheiro, que se todos se motivarem em confraternização tudo é possível...cumpri meu papel, mas não serei escrava disso forever...não sou escrava de minhas idéias, pois assim que uma nasce e anda sozinha, devo desapegar, devo deixá-la ir, para que eu possa ser livre para criar mais, cumprindo efetivamente o que considero meu verdadeiro papel: motivar, criar, fazer com que o "fogo" contagie mais e mais...Assim como uma obra acabada e exposta ao público, que deixa de pertencer ao artista, sinto que minha obra em relação a Bienal B, da forma como ela aconteceu, está encerrada é de domínio público. Para mim, a Bienal B se tornou fonte de muita reflexão. Sobre ela, meu dever ainda é escrever e registrar tudo o que se passou/passa. A importância não é realizar uma segunda Bienal B, mas prestar muita atenção a tudo o que aconteceu por causa dela e usar esse grande laboratório que ela foi para tirar-lhe o suco e re-alimentar o sistema.Puxa, aprendi coisas demais sobre muitas coisas e ainda estou pensando muito....Não sei mesmo como será uma segunda Bienal B ou de que forma estarei envolvida com isso, pois preferia ser apenas uma artista participante, uma colaboradora ou consultora, mas não gostaria de ter tanto trabalho como tive, ser linha de frente...puxa, isso dói bastante...
Mas é óbvio que não vivo sem uma sarna pra me coçar, com certeza absoluta assumo em minhas mãos, como sempre assumi, engajamento na dura luta de fomento e desenvolvimento de um cenário artístico inclusivo, tanto de artistas quanto de público. Vou usar o que aprendi para isso (vide próximo texto abaixo). Não creio que nasci para virar a dona de um grande projeto, pois vejo em sua manutenção e permanência, rotinas e ritos repetitivos, um cotidiano completamente avesso à minha liberdade criativa. Vira chatice e acho isso muito chato(redundância proposital para enfatizar o quanto acho isso chato...). Como criança, quero brincar, quero ser livre e criar muito mais margens que apenas 3, quero todas as praias do mundo...Bom, posso falar hoooooras sobre isso, posso ter dito algumas bobagens, mas como te disse, estou num momento de profunda reflexão. Espero ter te dado outras perspectivas sobre o assunto, um outro olhar sobres suas espectativas.Te agradeço que fostes propulsora de mais essa chuva de idéias, pois escrevendo para você na verdade escrevo pra mim. Abraços.
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