Conceitos e referências 2008 - última versão

Ruínas Pictóricas na Transdiciplinaridade Contemporânea
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"Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno".
Antonin Artaud
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INTRODUÇÃO (baseada no texto de apresentação da autora por Hélio Eudoro*)
Existe uma clara intenção de fazer arte contemporânea. Para tanto, existe um constante exercício de diálogo com o entorno e técnicas, através de performances, interferências urbanas, stickers, zines, música e instalações onde geralmente a autora se insere como um bem humorado e irreverente elemento da paisagem. Existe um questionamento constante dos suportes, do convencional, uma contínua busca da reinvenção; mutando, negando, reafirmando e negando novamente.
A conceituação oscila constantemente: hype, assemblage, naife, pop, hop, street, urbana, acúmulos, apropriações, linguagem prolixa e poluída. Parece muito? Mas não seria esta visualidade tão diversificada e sobreposta, uma resposta estética coerente com a experiência cotidiana? Logo, não existe uma necessidade de estigmatização, é isto ou aquilo, mas é isto E aquilo. É tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Referente ao território ou não.
O ateliê enquanto espaço de planejamento e finalização das obras, assim como laboratório para estudo da composição da própria obra enquanto possibilidades de inserção no espaço. A gênese, a gestação e a realização da obra que deverá acontecer nos espaços públicos ou privados. A rua, a cidade, os muros, o próprio olhar do público, tudo serve de suporte para um processo que tem suas bases no exercício das questões pictóricas, mas que na reflexão sobre as relações da autora com o meio e o tempo que vive, incorporam o trabalho poeticamente como ruínas, inseridas dentro de uma complexa solução transdiciplinar e multi-relacionada.

O GRÁFICO E A LINHA
O graffiti, a pichação, os adesivos, enfim, a expressividade popular das ruas, a estética encontrada em sites da internet construídos e/ou dirigidos às gerações de artistas que misturam cultura pop, alternativa e comunicação virtual, são referências fundamentais e significativas ao processo de construção de uma linguagem plástica nesta pesquisa.
Das técnicas utilizadas no espaço urbano ou virtual, observa-se a valorização do gráfico para estabelecer um diálogo com o espectador. A facilidade de leitura proposta por estes elementos gráficos, constituídos muitas vezes por linhas únicas e marcantes, geram uma decodificação imediata que age diretamente sobre o interesse do observador, levando-o a manter a atenção sobre o objeto e continuar decodificando, o que também interessa à autora que apropria-se deste mecanismo para gerar a percepção das relações com os demais elementos da composição do trabalho. A linha, neste caso, tem uma grande influência no processo construtivo, visto que muitas idéias iniciam-se a partir de linhas de recorte e desenhos vetorizados em Corel Draw. Os primeiros rascunhos de idéias ou elementos que venham a compor futuros trabalhos, são exercitados neste sistema de tela e mouse. Um exemplo deste processo é quando parte de uma fotografia digital, feita de si própria em movimento, redesenhado e transformado em molde stencil. Impresso e copiado para a radiografia, sofre o recorte – novamente um processo de linha, para servir de forma aplicada via molde, nos mais diversos suportes. A própria forma recortada, o que sai do molde vazado – stencil, torna-se elemento dentro da composição, juntamente com cacos ou resíduos que possam ser produzidos. Existe a possibilidade de aproveitamento integral de toda a produção que venha a partir desta foto vetorizada, forma em linha, ou mancha chapada, produzida pelos meios digitais e tornada matéria. Por outro lado, na mesma composição encontram-se presentes simultaneamente, sobreposições entre elementos gráficos (reproduções e sobreposições de grafismos ou stencil), construções de planos, tanto pictóricos quanto matéricos, linhas de ligação entre elementos ou sugerindo perspectivas, figurativos chapados ou compostos pelo acúmulo de linhas ou gráficos, assemblages formando um objeto bidimensional.

A ASSEMBLAGE
Como pode-se encontrar ao longo da história, trata-se de um objeto nascido de uma intenção pictórica, mas que extrapola o limite deste conceito, encontrando referências em artistas como Robert Rauschenberg e suas "combine paintings ".
A profusão de elementos expande o objeto para o próprio espaço do observador ao mesmo tempo que perspectivas hipnóticas e gestahlt´s premeditadas absorvem-no dinamicamente para dentro da composição. O conceito de assemblage se dá tanto nos aspectos formais, quanto no uso de diferentes processos construtivos, gráfico, pictórico, tecnológico, que objetiva aproximar-se das relações visuais cotidianas multimídia a que o espectador está sujeito diariamente.

A TECNOLOGIA
Lendo o artigo "O Regime Visual da Web Arte", de Maria Amélia Bulhões, no parágrafo Uma Nova Cultura Visual, Revista Aplauso 91, de abril 2008, percebe-se outro referencial aos conceitos visuais aos trabalhos em questão:
" Justaposição, sobreposição e hibridismo fazem parte dessa visualidade cumulativa, que se sustenta não na busca de uma unidade, mas por leituras de telas que, uma a uma, vão construindo sentidos."
Esse texto da professora Amélia descreve muito bem certos recursos visuais reincidentes e reflexões acerca dos processos construtivos e criativos, frutos de uma convivência diária profunda e perturbadora com a estética virtual, com a tela do computador, com visões fragmentadas, dinâmicas e urbanas.

A CONSTRUÇÃO DA COMPOSIÇÃO
Da mesma maneira, as sobreposições observadas nos trabalhos em discussão, junto com suas relações de diálogo e leitura induzem a diluir a obviedade das figuras imediatas, da figura em si, em prol de uma percepção de conjunto, da investigação e proposição de questões, percebendo camadas e perspectivas. Este procedimento de acúmulo de informações recebe influências e referências tanto da experiência visual tecnológica diária quanto pela estética de acumulação da assemblage que permite que todo e qualquer tipo de material possa ser incorporado à obra de arte, reafirmando afinidades entre arte e vida cotidiana.
Neste processo de construção do conjunto visual, existe a intenção de propor ao observador a opção de identificar ou não figuras dentro do conjunto, mas da mesma maneira, é forçado a ter uma leitura dos demais elementos que se integram e dialogam com estas figuras encontradas. A diluição da figura entre os demais elementos da composição pretende questionar a validade de uma leitura apenas figurativa obrigando o espectador a percorrer e interpretar estes conceitos em relação aos demais elementos que dialogam por todo o trabalho.

PICTÓRICO, OBJETO, COLAGEM OU ASSEMBLAGE
Parte-se do estudo pictórico, que se avoluma, torna-se construção matérica mesmo que ainda sejam relações e estudos de pintura, referenciando-se para isso nos trabalhos de Nuno Ramos, que também questionava o volume pictórico através da acumulação de elementos, buscando uma dinâmica de relação entre os elementos que formassem uma leitura contínua e não simplesmente de colagem. Para isto, ele buscava "enfraquecer a forma", processo de análise de construção da composição, que ocorre durante o fazer, usados nos trabalhos em discussão e também referenciados nos trabalhos de Jackson Pollock e que diz respeito a agregar os elementos de forma que um leve ao outro, gerando uma dinâmica de leitura ao observador. Tais procedimentos aprofundam-se em processos de equilíbrio visual, de construção de percursos ao olhar bem específicos, que, enquanto fazer, num primeiro momento se expressam e num segundo se organizam, formando um diálogo com a autora no instante de sua construção, que tem por satisfeita a obra, enquanto que seus resultados expressam diálogos possíveis e dinâmicos ao observador.
Neste processo criativo tão diversificado em meios, suporte e gestualidades, a autora não somente mantém um diálogo com o objeto, como imerge em sua construção. Passa a maior parte do tempo mergulhada dentro da próprio fazer, repetindo a trajetória da "action painting", que rompe com o limite do bastidor, abre a composição para o próprio espaço, traz o objeto artístico para sua própria realidade e vive-a, subvertendo o conceito contemplativo e passando a fazer parte da obra, existindo enquanto uma relação corporal entre a artista e a obra resultante do encontro de sua gestualidade e o material.
"Pegar a pintura", "pegar a forma verde" "pegar a linha", construir um plano de cor através da inserção de um objeto que tenha a cor, o próprio plano do objeto é o plano de cor, a pintura sai pra fora e torna-se literamente física, objeto, tridimensional, e ainda é bidimensional, ainda necessita a parede para escorar-se, não interessa trabalhar o lado de trás. Um objeto bidimensional, tanto quanto realidades virtuais, tridimensionais, chapadas na tela do computador. Você pega, mas também não pega...está ali, real, mas também não.... Nesse fazer, rompe-se os limites do pictórico, que permanece enquanto referencial na pesquisa, mas as possibilidades de relações, de meios, de conceitualização se multiplicam e se sobrepõem.


O DISCURSO DO OBJETO, AQUILO QUE SOBREVIVE
Essas novas leituras, o grafitti, apropriações da cidade, não são novidade. Referências e estudos sobre o assunto multiplicam-se vertiginosamente, tanto quanto inovações na tecnologia, e fazem parte das questões da arte atual. Artistas explorando estes conceitos proliferam invadindo galerias ou convivendo com o público pelas ruas da cidade. As últimas edições da Revista Aplauso, guia referencial da cultura local (Porto Alegre, 2008), tem realizado uma série de artigos à respeito evidenciando aspectos desse tipo de produção de caráter híbrido e urbano. Ressalta-se uma matéria sobre a exposição do artista Eltono, que realizou trabalhos de apropriação e pintura para a Galeria Adesivo em Porto Alegre.
"(...)Em Porto Alegre, passeou pelas ruas recolhendo materiais tratados como lixo. "Ele estava muito empolgado com as texturas das madeiras, encontrou chapas de lanchonetes da década de 80", (...) "Pintando as favelas do Rio de Janeiro descobri que suas paredes são o suporte mais interessante para meu trabalho, então passei a recriá-las", explica Eltono. (...)"
Do gráfico ao pictórico, da assemblage à tecnologia, "action painting" ou "combine paintings", todos os elementos e conceitos convergem para a reformulação da experiência visual diária urbana. É no conceito de conjunto do objeto que reside a justificativa de seu processo, da leitura que faz do entorno. Os múltiplos elementos sugerem um diálogo sobre as relações com a urbanidade, através de aspectos físicos – e de acumulação - que vem dos resíduos, da fuligem, da agressiva convivência com a poluição visual, do lixo, do marginal. A sobrevivência como contraponto. A existência apesar da adversidade. O domínio da adversidade. Uma profusão de linguagens que faz lembrar e ansiar o silêncio. A paz que vem do torpor, a satisfação pelo fastio. Trata-se de composições "de" e "sobre" sobrevivência num meio hostil. E é uma sobrevivência natural, quase não-questionadora, pelo contrário, conformada e adaptada para a própria adversidade.
O emprego de madeiras, isopor, plástico, refugos tecnológicos, a presença do grafitti, da tinta spray usada inclusive conceitualmente, por sobre materiais, restos de cartazes, fiação, bandagem, parafusos, grampos e pregos. Até a sujeira faz parte. Existe uma ação inicial de coleta, não qualquer coleta, mas seletiva, desde então considerando-se sua significância já prevendo um projeto de combinações futuras, uma pré-organização e escolha destes materiais, destes vestígios urbanos e de registros de existência que irão compor a obra, tanto como elemento de cor, de mancha, quanto elemento simbólico e significante. Segue-se uma apropriação destes elementos para recombiná-los na elaboração do objeto artístico, uma reconstrução urbana que serve de suporte e corpo para o objeto bidimensional que irá, ainda, receber elementos gráficos e pictóricos, que conduzam o olhar para diálogos e dinâmicas. Simulacro de cidade para conversar com ela, exercer domínio. Parte de elementos de desconstrução, da cidade ou da própria identidade, restos recolhidos, que se misturam a um caldo de meios. No processo de reconstrução, estabelece camadas referenciadas por fundamentos pictóricos mesmo que o resultado final tenha um profundo diálogo gráfico. O trabalho avança sobre o espaço do espectador, com uma nova unidade, reconstruído, regurgitando o que assimilou com uma nova leitura, aquilo que agredia agora é dominado, a leitura da autora, da adversidade de tantos elementos nasce o que deveria sucumbir, uma visualidade autoral transdisciplinar e sobrevivente.

ARTE LIVRE, PRESSUPOSTOS DE PESQUISA
Tecnologia, apropriações ou construção pictórica. Hibridismo transdiciplinar comum aos tempos atuais. Certo é que é um processo que pulsa, expandindo e concentrando, destruindo para construir...auxiliado pelas dinâmicas do objeto articuladas deliberadamente para este fim, oferecendo pistas sobre os elementos da composição e jogando o espectador para os mais diversos percursos... o tempo inteiro diálogos e relações com os conceitos da virtualidade ao propor diversas leituras, opções, construção e uma participação física do observador. Um simulacro de virtualidade, ou da própria experiência cotidiana, elementos em movimento suspenso, entre a realidade do objeto e a interação no espaço do espectador. Ainda que o chassi de madeira transforme-se num conjunto de meios, técnicas e linguagens, migrando da matéria para a arquitetura do trabalho, onde nenhum sentido prevaleça, mas cada elemento legitime sua importância no equilíbrio do todo, pode-se afirmar que existe a possibilidade do objeto ter sua relevância para as questões pictóricas, ainda que isto seja longe de esgotar suas possibilidades de conceitualização formal.

CONCLUSÃO
Para finalizar, faço minhas as palavras de Nuno Ramos:
" Sinto apenas que o progresso e o retrocesso, o futuro e o passado, as conquistas e as perdas, tudo parece vertiginosamente entrelaçado. Diante disto, parar a frase no meio, não permitir que os materiais se estabilizem, identificar-se com a natureza e com a técnica, com o Carnaval e com as Cinzas, recuar para o momento que precede a ação, saber desviar do olhar de quem te solicita, aparecer desaparecendo, enfim, não se deixar formar inteiramente, talvez seja uma astúcia válida para construir um abrigo onde ainda dê pra ser um pouco livre. No meio de tanta gente sabida, de tanta palavra de ordem disfarçada, o melhor talvez não seja bater de frente, mas estar sempre em outro lugar.".


REFERÊNCIAS PRÁTICAS
* Hélio Eudoro é artista plástico e produtor cultural. Escreveu um texto de apresentação sobre Gaby Benedyct usado em seu portfólio por ocasião de inscrições em salões ou outros fins, como exposições ou esta monografia.
Experiência visual diária urbana + 8 horas diárias em frente ao computador.
Visitação e análise crítica dos trabalhos em exposições no Santander Cultural, Galeria Adesivo, Bolsa de Arte Galeria, Galeria Arte & Fato, Subterrânea Galeria, seis edições da Bienal do Mercosul, MARGS, Associação Chico Lisboa, Galeria do DMAE e Galerias do Gasômetro entre outras menosres entre os anos de 2002 e 2008.
Experiência prática e crítica adquirida na articulação, acompanhamento e participação do trabalho curatorial do evento Bienal B, 2007, em relação à análise de mais de 400 portfólios virtuais de artista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Principais - usadas na composição desta monografia texto.
Assemblage – Site Itaú Culturalhttp://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=325Nuno Ramos – entrevistas nos siteshttp://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/julmonachesi/entrevistas/nunohttp://www.canalcontemporaneo.art.br/blog/archives/000683.htmlAction Painting – Site Itaú Culturalhttp://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=350Aplauso: http://www.aplauso.com.br/site/portal/detalhe_notas.asp?campo=1012&secao_id=17RIZOMA.NET
http://www.rizoma.net/interna.php?id=153&secao=artefato

Secundárias, mas não menos importantes coletadas nos últimos 4 anos, contribuíram para o processo dos trabalhos em questão e são constante fonte de pesquisa, por manterem uma reflexão atualizada com o contexto cotidiano, foco de interesse da autora.
http://artesdoispontos.com/
http://www.portalartes.com.br/
http://www.speculum.art.br/
http://www.eco.ufrj.br/pretexto/pensamento/pensa2.htm
http://www.echonyc.com/~trans/artcity/artecidade.html
http://arte.coletivos.zip.net/
http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/rvilhena/chumana.htm
http://www.cromossoma.com.br/
http://www.netprocesso.art.br/
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und/404_22.htm
http://www.artbr.com.br/2008
http://www.zupi.com.br/
http://www.canalcontemporaneo.art.br/
http://www.alexandreorion.com/_orion.htm
http://amnesia.weblog.com.pt/
http://www.canalcontemporaneo.art.br/
http://www.cidadecenografica.com.br/oquee.htm
http://www.graphotism.com/gallery.asp
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/arttec/home/dsp_home.cfm?cd_pagina=1432&cd_pagina=1432&CFID=5481802&CFTOKEN=68204197
http://www.ucm.es/info/especulo/numero28/estrateg.html
http://www.stencilbrasil.com.br/
http://www.stencilgraffiti.com/links.html
http://www.cvergara.com.br/pt/anos2000/galeria.php?idx=00050
http://dmtr.org/generative/?id=45
http://superbad.com/1/notice/index.html
http://cfh.ufsc.br/~simpozio/megaestetica/e-cores/3911y117.html
http://www.rojo-magazine.com/

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